quarta-feira, 28 de setembro de 2011

sábado, 10 de setembro de 2011

UM BICHINHO À TOA


Já está disponivel, no site da editora Biblioteca24x7.com, o livro UM BICHINHO À TOA, com capa do Camilo Lelis(Camilinho) prefácios de Max Portes. A aquisição poderá ser feita através do site da editora:

www.biblioteca24x7.com.br

Através desse mesmo endereço adquira também "FALA, FILHO DA MÃE!!!" de minha autoria

Entrevista concedida à TV LESTE de Governador Valadares, em 13 de agosto de 2011



Outras opções de aquisição:

www.livrariacultura.com.br e, para quem está fora do Brasil: www.amazon.com

AFINANDO O DAGUERREÓTIPO


Cidoca só queria mesmo era ver seu retrato na parede.

Quando olhava a fotografia de “Seu” Juca e dona Mariquinha, pendurada na sala ficava imaginando sua moldura ali. Ela de cabelos penteados, preso de rabo de cavalo, o rosto espelhado de pó-de-arroz e a moldura envernizada dando suporte no seu feitio.

Nunca teve coragem de falar com ele. Não tinha noção dos “cobres” que desprenderia pra fazer sua obra de arte.

Bem que podia falar pra “Seu” Juca: “Bah, pra que retrato? Desperdício...” Devia ser muito dinheiro. Caro, diria “Seu” Juca. Afinal, a domagem do aparelho era tão complicada quanto o pronunciar do seu nome: daguerreótipo! Mais parecia nome do Capeta, isso sim.

Da vez que Cidoca viu ele fotografando os dois patrões, ficou imaginando. Ele carregava o daguerreótipo encaixado na bicicleta. O aparelho criado pelo francês Louis-Jacques-Mandé Daguerre, no entremeio dos Séculos XVII e XVIII, consistia na técnica da utilização de uma fina camada de prata polida, como receptáculo da imagem que se fixava sobre placa de cobre, sensibilizada com vapor de iodo. Ficava tudo capturado ali dentro daquela caixinha quadrada, feita de metal, o que intrigava Cidoca, que não tinha nenhum entendimento de daquerreótipo e nem nunca ouvira falar dessas coisas. Sabia de nada disso e só queria um retrato na parede.

Desembrulhava o bichinho e o encaixava enroscado em cima de um tripé. Era uma maquineta de metal, com um fole de papel preto na frente, com uma lente de vidro, um rabicho com um dispositivo de arame de aço, pendurado de lado, fino, parecendo com uma seringa de injeção, que ele chamava de disparador. Meio simplório, não fosse o fole preto de lente de vidro na ponta. O tripé era de madeira. Preso com uns parafusos, desses de borboleta, que não precisa de ferramenta pra apertar, pintado de preto, era todo regulável. Ele mesmo o fizera.

Antes do momento exato de fotografar, desenvolvia uma intrincada cerimônia em volta daquela geringonça que mais parecia um bicho-pau, um louva a Deus. Era um ritual engraçado igual um bailado de ave na choca. Espichava o fole, encurtava o fole, regulava na borboleta, encurtava as pernas do tripé, fechava as pernas do tripé, tornava a abrir, desarrochava a borboleta, arrochava de novo. Observava de esguelha, com um olho fechado, através de uma janelinha na parte traseira da maquineta. Acertava cuidadosamente a cabeça de dona Mariquinha, voltava a observar de olho fechado...

- “Seu” Juca, agora o senhor. Vira a cabeça um pouquinho pra direita... isso... isso... a senhora fica quieta, não se mexa...

Jogava um pano preto sobre a cabeça e fazia a conferência final, agora era pra valer: PRONTO! Abria o compartimento traseiro do “daguerreótipo” puxava uma chapa metálica e avisava por fim:

- Os dois quietinhos; sem respirar! Olha o passarinho...

Pressionado o disparador, ouvia-se, um chiado feito ferro riscando em ferro e logo em seguida: CLAPT... Era o barulhinho da engenhoca registrando o instante final do milagre, do retrato.

Cidoca observava de longe. Não queria ficar assentada daquele jeito. Queria uma foto em pé. Sim, em pé, de corpo inteiro, queria o espectro da beleza e do milagre, registrado para sempre, no traço de suas faces arroxeadas de pó-de-arroz, no cabelo de rabo-de-cavalo, no detalhe da mão na cintura demarcando os quadris arredondados, do banho tomado, dos sapatos apertando os pés, da fita no cabelo e o olhar sério, guardado para a eternidade, para a lembrança dos que nem sabe se viriam! Ah... tudo ali, dentro do “daguerreótipo”, estojinho de nome estranho, mas de efeito delirante!

Não passava dois meses sem que ele pousasse ali no casarão da fazenda. Os retratos eram feitos fora, imaginava Cidoca. Aquilo era coisa de ser feita na cidade, por algum doutor. Mas ele mesmo os fazia. Voltava depois para a entrega, sempre carregando o seu daguerreótipo. Podia surgir a surpresa de uma nova encomenda. Não tinha outro na região, era o único.

Cidoca precisava de coragem. Talvez se demonstrasse curiosidade sobre o aparelho, talvez quando fosse arrumar o quarto onde ele dormia!! Tinha uns cobrinhos guardados e bem podia dar conta de pagar. Até porque, “Seu” Juca o tinha na sua confiança, e se precisasse fazer uma prestaçãozinha, teria crédito. Assim comprava rendas e fitas de Tião Norato, o caixeiro viajante da região.

Naquele dia ele chegou debaixo de chuva. Entrou no casarão, como gente de casa, que era, carregando o “daguerreótipo” embrulhado no pano preto. Tirou as botinas e caminhou pro quarto onde costumeiramente descansava.

Depois de preparar-lhe a janta Cidoca estufou o peito, criou a coragem que vinha acumulando desde tempos e puxou conversa, na intenção de fazer o seu pedido. Deixaria a proposta da prestação pra falar no final da prosa, se precisasse.

- Sô Zias, carece do senhor tomar um banho e vir jantar que deve de tá morrendo de fome. Num minuto preparo a comida pro senhor. Vô fritar ovo, o senhor vai querê que faiz ele mais mole ou mais duro?

Sem se voltar para Cidoca, enquanto cuidava de preservar sua ferramenta de trabalho respondeu-lhe na maior sem cerimônia:

- Ah... pode fazer três moles, três duros, o resto pode ser de qualquer jeito!

Cidoca não entendeu nada. Teria aquela fome alguma coisa a ver com um daguerreótipo? Fome do Capeta!!! Pensou. Deixou o pedido pra quem sabe quando!


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NEGORIDES


Eurides é nome próprio que vem do grego. Significa impetuoso, muito agitado.

Ele era negro e não tinha nada de impetuosidade capaz de lhe lembrar o nome. Os braços desciam além da cintura e projetavam-se mais longos do que o normal, induzindo a uma comparação com o protótipo do ancestral que moldou a todos para a atualidade. Hábil impressor tipográfico administrava com maestria sua Heidelberg alemã que roncava quase que doze horas seguidas, naquele pavilhão perlustrado de sarcasmo, ambiente coletivo, onde todos se sujeitavam à troça e à fanfarronice dos companheiros. Faltava-lhe um epíteto, talvez, “o rei da automática”, ou “o rei negro da impressão”.

Com ou sem epítetos, ele sobrevivia e não dava bola para os chistes que surgiam a cada quarto de hora, mas cada um era respeitado ao modo de seu comportamento. Ria como se estivesse engolindo o riso e assim era melhor. Nada que se lhe quisesse impor resistia por muito tempo. Seu modo sereno de apreciar as piadas que faziam com ele, resumia-se num amarelo sorriso disfarçado no canto da boca e a compenetração no manete da Heidelberg que comandava. Agia assim por estratégia; penso. Pau pra toda obra, abandonava vez em quando, a automação da “alemãzinha” e tomava a guia da velha Minerva formato quatro, negra, feito ele, encostada num descanso forçado no aguardo de uma emergência, quando a engenhoca importada não suportava.

Essa é linguagem pouco conhecida, que Eurides dominava com maestria. Formato quatro significa a divisão de uma folha de papel do tamanho de uns dois metros por dois metros, mais ou menos, em quatro pedaços com medidas iguais. As especificações, Minerva e Heidelberg, denominam o gênero máquinas de impressão tipográfica, ofício que já não mais representa o significado de tantos anos atrás, ocasião em que nos encontramos pela vez derradeira.

O surgimento de uma nova metodologia, nas técnicas de impressão, impusera o risco de aposentadoria para profissionais de impressão das tipografias, geniais operários que nem Eurides, e trouxe uma revolução sistêmica nas comunicações, fazendo que as pessoas ficassem mais próximas umas das outras. É impossível que não nos adaptemos a essa nova modalidade de coexistência, representada pela proliferação do computador. Sim, esse mesmo instrumento que aposentou de vez a tipografia que durou de Gutenberg a Eurides, é o mesmo que cria a possibilidade da comunicação imediata entre as pessoas. Mas que Eurides não conhece, infelizmente.

Dentro dessa nova dinâmica topei cara a cara com Josélia Engels. Moçoila bonita, com face de traços largos, seu rosto emoldurava o quadrilátero impreciso de uma página eletrônica, onde fizera inserir o seu apelo de busca do pai, Eurides da Silva.

Estava lá, bem legível o recado. Diante de um castelo qualquer da Alemanha, clamava pela condescendência de algum residente na distante Caratinga de Minas Gerais, que não conhecia. Dessem-lhe notícias do pai, pois não o via por mais de duas décadas. Percebi logo que a busca de Josélia iria esbarrar em “Negorides”, aquele mesmo, que conheci anos atrás, na mesma cidade de Caratinga. Só podia ser ele.

Sem perder o fluxo da informação, estendi a abrangência do apelo e pude dividir o êxito com a jovem Josélia, em menos de uma semana. Encontrei-o. Estava ainda lá, escarafunchando uma Heidelbergzinha, tão desatualizada, em uma romântica tipografia num encontro de ruas da cidade onde sempre esteve.

A descoberta de “Negorides” me valeu a amizade da filha, com a promessa de eternizar o encontro através de um registro fotográfico, para posterior envio às terras saxônicas.

Com origem no “entrudo” português, para mim o carnaval é a expectativa de fuga do grande centro. Submeto-me ao suave descanso que os três dias da carne proporcionam. Prefiro sempre o bucolismo da cidade pequena no interior. Preparei então, o espírito e a máquina fotográfica. O espírito era meu mesmo, o adereço digital, de minha irmã, a quem encarreguei de fazer as fotos. Visitaríamos “Negorides” na segunda de carnaval. Fiz um compromisso com Josélia e estava disposto a cumpri-lo.

Ao final de meia dúzia de horas, longas e cansativas, seguidas a um indigesto congestionamento de almas no terminal de embarque da capital, em razão da folia, chegamos a nosso primeiro destino; uma longa espera nos levaria até Entre Folhas, onde nosso pai nos aguardava de tornozelo quebrado.

No entroncamento de vias, que ligam as cidades grandes, sentamo-nos no banco liso de madeira e conversávamos. O trânsito era intermitente.

A conversa entre minha irmã e eu foi interrompida abruptamente com a aparição inesperada de “Negorides”. Foi tudo tão rápido que parecia impossível classificar aquilo como verdade. Caminhando em nossa direção, trazia na aparência os mesmos traços de trinta e oito anos atrás. Apenas o encanecido dos cabelos fazia diferença, no contraste da moldura de seus olhos grandes, e o sorriso largo e amarelo sendo engolido, estrategicamente, como forma de defesa, na medida em que eu me aproximava, insistindo em chamá-lo pelo nome.

Não demorou muito para me reconhecer. Nos abraçamos com carinho e eu lhe falei de Josélia. Ele também me falou da filha, feliz ao seu modo. Prontamente posicionou-se para uma série de fotos, a meu comando, que fizemos ali mesmo, na beira da estrada. - Não o encontraria - disse. Com o feriado de Momo, só voltaria ao serviço depois das cinzas.
Se alguma força estranha o levara ao meu encontro, não discutirei, o certo, pois, é que terei cumprido efetivamente o compromisso firmado com Josélia Engels, quando, do outro lado do mundo, ela puder, lendo essas anotações, folhear as fotografias do pai, de quem não tinha notícias há vinte e três anos. Valeu! Foi grande também minha felicidade, não só por atender Josélia, mas por tê-lo encontrado e ter podido abraçá-lo.


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