sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Trovadores Urbanos -- Canções Paulistas Ao Vivo - Faixa 1

A cruzada da Veja contra Chico Buarque

blog do Miro

reproduzo artigo de Washington Araújo, intitulado “A reinvenção e o veneno”, publicado no sítio Carta Maior
E pensar que o noticiário dos jornais diários mudou completamente em 30 dias! As grandes apostas dos diários em 22/10/2010 eram feitas em cima do caso da bolinha de papel que havia “quicado” na calva de José Serra. O SBT e a Globo travavam sua disputa com os poucos elementos da verdade: foi uma bolinha inofensiva ou esta teria sido apenas o primeiro objeto arremessado contra o então candidato tucano? O trololó da quebra de sigilo fiscal de Verônica Serra e mais 3.999 cidadãos brasileiros ainda reverberava com indícios de que quem estava por trás de tudo era o jornalista mineiro Amaury Junior. A peregrinação de Dilma Rousseff e José Serra por templos religiosos aparecia com menor força. O personagem escaldado Paulo Preto continuava naquele lusco-fusco: merece freqüentar capas de jornais ou não? E o mais que tínhamos eram as pesquisas intenção de voto no segundo turno. Todas dando vantagem de Dilma variando de 10 a 12 pontos sobre Serra.

É impressionante a capacidade de envelhecimento que as notícias têm. Os jornais, porque estou aqui mais focado nestes, parecem clínicas pediátricas que na eternidade de 24 horas se transformam em robustas clínicas geriátricas. Os eventos pautados pela imprensa escrita no mês passado parecem coisas muitas antigas, datadas demais, passadas em excesso, meros esperneios inúteis e toda sorte de energia gasta para manter acesa a chama do jornalismo. E para isso, sem rodeios, se utiliza cada vez mais óleo da pior qualidade.


Dito popular

O jornalismo precisa se reinventar todo dia. Buscar forças não se sabe bem onde para continuar avante. Como toda profissão que seja digna a um ser humano, o jornalismo precisa de doses diárias de utopia. Não a utopia representada por “meros devaneios tolos a nos torturar”. Nem a utopia que abarca amontoado de piedosas intenções. Penso na utopia de fazermos um jornalismo melhor, veraz, contundente na medida, correto e, também, sem segundas nem terceiras intenções, sem agendas sequestradas de grupos secretos como os Iluminati.

Utopia que se preze é aquela que nunca se realiza. Está sempre pendurada no horizonte. E fica no horizonte para termos certeza de que nunca a alcançaremos. E quanto mais nos aproximamos da utopia mais ela recua. Avançamos quatro passos ela recua quatro passos. Mas ainda assim a utopia tem sua serventia. Ela serve unicamente para nos fazer caminhar.

O jornalismo deve nos fazer crer que é possível viver para além da infâmia, dos escusos jogos de interesse. E nos alertar para quando estivermos prestes a confundir o destino com o tempo presente. Sem a dose de utopia diária fica quase impossível manter essa certeza de que amanhã o mundo pode ser bem diferente do que é hoje. Em uma época marcada pelo “vale quanto pesa”, falar em utopia parece ser o absoluto nonsense. É que há que se transformar a utopia em ações esculpidas na realidade nossa de cada dia. E voltamos a pensar sobre o destino de irmãos siameses a atar os fins e os meios.

Estava em meio a tais pensamentos quando, num estalo, pensei sobre as relações dos meios de comunicação com aqueles por ela eleitos como “desafetos”. Refiro-me mais recentemente à cruzada da revista Veja para menosprezar, ridicularizar o cantor e compositor Chico Buarque. E tudo por causa de Prêmio Jabuti. E tudo porque a imprensa parece desconhecer o que há muito reza o ditado popular: “Todo mundo sabe que jabuti não sobe em árvore. Se lá está é porque alguém o colocou”.

“Cansaço e irritação”

Comecemos pelo começo, já nos ensinava Heidegger. Chico Buarque é tímido e sempre foi tímido. Assume que não tem medo de público. Ao contrário, sente pânico. E de onde vem esse mal-estar logo que o artista sobe ao palco? É que Chico sabe que ali, naquele buraco negro que é a boca de cena, estará à frente de centenas, milhares de pessoas. E sofre com isso. Em suas palavras: “A gente é visto sem ver. Terrível”.

Para um tímido de carteirinha, com crachá e tudo, deve ser no mínimo desagradável ficar sabendo que a revista da Abril não lhe perdoa o sucesso. Como dizia Tom Jobim, velho amigo e grande parceiro de Chico, “se existe uma coisa que o brasileiro não perdoa, esta é o sucesso”. Afinal, em que grama a imagem, a obra e a vida de Chico Buarque seria aumentada – ou diminuída – por haver sido contemplado com o Prêmio Jabuti? Longe de ser privilegiado ao receber um prêmio, seja de música ou de literatura, outra constatação evidente é que é bem mais plausível que Chico agregue valor ao prêmio que o contrário.

Não seria obrigação de jornalistas minimamente informados beber do senso comum e dar conta de que Chico é hiperfacetado, pode ser apreciado como cantor, compositor, roteirista e teatrólogo ou então como escritor e pensador? Chico nem reivindica qualquer aprovação, selo de qualidade ou beneplácito dessa ou de outra imprensa. A timidez buarquiana deixa evidente que se existe algo que ele recusa é o tal rótulo da unanimidade. Não precisa ser unanimidade – até porque a palavra ficou amaldiçoada depois de andar de braços dados com a burrice, segundo a verve de Nelson Rodrigues.

A verdade é que o irmão de Raízes do Brasil – sim, porque falam que livro é como filho e seu pai Sérgio Buarque de Hollanda simplesmente brindou nossa cultura com esta obra – trafega na cultura brasileira com passe livre, 24 horas ao dia, 365 dias ao ano, sendo festejado nos papos da Zona Sul carioca e também nas quadras das escolas de samba dos morros dessa cidade. Não à toa foi referido por Dona Zica como “Chico Buarque de Mangueira”. Sua vida, sua música, seus livros, suas peças, tudo isso foi tema do samba enredo da Estação Primeira de Mangueira em 1998.

Chico não contava 30 anos de idade quando Veja, em sua edição de 2 de maio de 1973, já o adotara como declarado desafeto. O título de alentada “reportagem” era muito claro: “Brasileiro, batuqueiro, encrenqueiro”. Destaquei o seguinte:

“Os variados personagens interpretados nos últimos meses por Chico Buarque são, pela intensidade com que atingem o público, necessariamente contraditórios. Muitos de seus admiradores preferem ainda o Chico outros tempos, menos elaborado, feliz com sua Joana debaixo do braço, carregadinha de amor. Para um reitor em Minas, suas palavras nada tinham de talentosas ou corajosas, classificando-as publicamente como a expressão de um bêbado e um imoral. Os censores, talvez excessivamente exasperados por alguns casos isolados, não lhe dão tréguas. Assim, cinco anos depois de ter escrito e vomitado a peça ‘Roda Viva’, onde manifestava seu cansaço e irritação pelo fato de ser um ídolo do qual todos tudo esperam, ele está mais uma vez numa roda-viva de trabalho, receios e angústias…”

Importância relativa

Muitos são os colunistas de Veja que se dedicam com afinco ao esporte de açoitar o filho de Memélia. Diogo Mainardi em sua crônica “Edna entendeu tudo”, de 11/7/2009, escreveu que…

“Edna O’Brien conheceu ‘Chico’ uma semana atrás, na Flip, em Paraty. Depois de participar de um debate, ela foi arrastada a um encontro entre Chico Buarque e Milton Hatoum. O que ela afirmou, assim que conseguiu escapar do encontro? Que Chico Buarque era uma fraude, que ela se espantou com sua empáfia e com seu desconhecimento literário, e que se espantou mais ainda com sua facilidade para enganar a plateia da Flip.”

Em 19/10/2010 a coluna de Augusto Nunes anotava a mais importante frase de um artista brasileiro pronunciada ao longo da campanha eleitoral de 2010. Tem a assinatura de Chico e ele a pronunciou no lotado Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro, quando centenas de artistas declararam apoio a Dilma Rousseff: “O Brasil é um país que é ouvido em toda parte porque fala de igual para igual com todos. Não fala fino com Washington, nem fala grosso com a Bolívia e o Paraguai”. O colunista agregava de sua lavra essas pérolas de urbanidade:

“Chico Buarque, ao declarar apoio a Dilma Rousseff, reforçando a suspeita de que o cérebro é dividido em compartimentos estanques, o que permite que convivam na mesma cabeça, por exemplo, um inimigo de ditaduras militares, um admirador de ditadores latino-americanos, um compositor genial e uma besta quadrada em política.”

Para alguém que compôs coisas como “Deus lhe pague”, “Rita”, “Pedro Pedreiro”, “Quem te viu, quem te vê”, “Brejo da Cruz”, “Olhos nos olhos”, “Beatriz”, “Paratodos” e levando em conta a exuberante produção poética (e literária) desse parceiro contumaz de Tom Jobim, Vinícius de Morais, Rui Guerra, Francis Hime e Edu Lobo, a revista precisará consumir ainda algumas toneladas de tinta e papel para começar – quem sabe? – a ficar na altura de seu antagonista e, se algum dia for conseguido o intento, dar início ao debate. Mas, então, sem saber o que será, restará apenas desalento com todo sentimento investido por Chico na construção de uma gota d’água.

Quanto aos jabutis, é bom que se diga que este jabuti-caçula faz companhia a outros dois ganhos pelo mesmo Chico. Para quem enfrentou um Maracanãzinho lotado – em outubro de 1968 – vaiando sua “Sabiá” na ilustre companhia de seu “maestro soberano”, o sr. Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, qual seria mesmo a importância de um jabuti?

domingo, 16 de janeiro de 2011

Bi Centenário de Entre Folhas



Acordo no ano 2011. Até me acostumar com a grafia correta do ano, lá se iriam algumas folhas de cheque. Coloco o verbo nesse tempo porque já se foram muitos, os anos em que não uso essas folhinhas que conspiram a favor do estelionato. Cheque é cabeça, ou ponta, ou incentivo ao estelionato; crime do Códex que os “achistas” de plantão teimam por querer modificar, mas que leva o desabusado ao risco de uns cinco anos de cadeia.

Desisti do cheque, quando percebi que não possuía as qualidades para aguentar a tentação do “pós datado”. Sim, a termologia correta é essa: pós datado. É do codex também. Inventaram um pré-datado, que combina muito bem com o 71. Quando dizem 71, na verdade, querem dizer 171, o número do artigo que dá os cinco anos de cana.

E que é que tem a ver isso tudo? Passo essa escorregadela pra justificar a data. Pra dizer que não corro esse risco de errar. Na verdade, só vou manejar datas uns bons dias depois do inicio do ano, quando volto do recesso merecido que nos restou da campanha virulenta contra as férias forenses do meio de ano. Diziam que era pra agilizar as ações do judiciário. Ledo engano. Continua tudo paradin, paradin…

Nesses dias, corro pra Entre Folhas, pra que o recesso se imponha com mais deleite. Nesse prenúncio de 2011, meu recesso sofre uma delirante ameaça com a inundação da cidade. Vi repassar em meus olhos, o desastre de 1981 quando metade de tudo ruiu e a lama fez camadas pelas ruas e casas. Pensei que encontraria as coisas tal como naquela época. Me surpreendi. Que estava complicada a coisa, não há negar, mas não chegava nem perto do que víramos 29 atrás. Assim o entendimento do Tatá de João Otacílio, do Adão Profiro, do Deninho e do Zé Andrade.

Naquele ano longínquo, não tínhamos a estrutura de hoje. Quando a notícia me chegou, lá atrás, já eram passadas umas doze horas da hecatombe. Dessa vez, pude ouvir o borbulhar das águas, no meio da madrugada, em telefonema diligente do Nem Longino. Avisei a galera ainda no lusco fusco. Acho que sempre sou o primeiro a receber esses avisos. Não sei porque não, mas me ligam antes de qualquer coisa. Não foi preciso mobilizar o batalhão de “madruvás” espalhados pelos abissais vales de Belo Horizonte, como da outra vez. As coisas agora, chegavam de roldão em caminhões de donativos. A imprensa nacional se encarregava de difundir o lamento. Entre Folhas foi para os ares da galáxia. O mundo todo, assistiu a fúria do ribeirão da cidade do Meio Quilo. Um rio nanico, anão feito ele, mas que de um momento para o outro se transformou num dragão que ruge, de peito estufado, e explode dentro de seus limites. Passada a tristeza inicial, o ribeirão volta a dormitar, “esquecido” como o “esquecido” Meio Quilo. Ninguém fala dele. Vira Geni; jogam lixo nele, jogam bosta nele…

Bi-centenária Entre Folhas? Assim. Com muita água e pouca memória

Converso com Zé Andrade. O fortunato líder concentra conhecimentos profundos sobre a história da região. Concorda comigo em muitas coisas, em outras não. Mas eu também discordo dele em vezes. Somando os dados que temos, concluímos que a povoação do lugar onde está assentada hoje, a cidade de Entre Folhas teve início por volta dos anos 50, 60 do século XIX. Concordamos ainda, que a história dessa terra precisa ser destacada com cores reais; deve-se baixar no garimpo da pesquisa cientifica, e não em apelos ufanistas apenas.

Há fatos que são notórios. A história que se conta hoje, sobre uma possível influência de um suposto miliciano das tropas imperiais, não se sustenta. A própria ausência de costumes ligados à sede da província em nosso meio, principalmente na culinária destrói a tese do miliciano. Não há vestígios da presença escrava em nossa região. As famílias povoadoras, todas elas, são “lá de fora”, e esse “lá de fora” guarda grande relação com a região de Juiz de Fora(Tocantins, Piraúba, Rio Pomba, Guarani, etc.), o que nos relega ainda hoje uma grande aproximação com o Rio de Janeiro. Uma culinária rica em produtos dos quintais como a carne de porco, bem marcada pela feijoada, o frango com quiabo, o angu, os derivados do leite são características marcantes da Zona da Mata mineira, região donde saímos para nos transformar em Vale do Rio Doce, numa migração bastante autoritária.

De forma diferente, as cidades com ligações mais estreitas com o núcleo do poder, central, como Sabará, Mariana, Santa Luzia, Caeté, Itabirito, aquelas incrustradas no leito do Rio das Velhas, praticam uma culinária diferenciada da nossa (estão presentes na mesa: o ora-pro-nobis, o cansanção, o broto da samambaia, etc.), tem costumes diferentes, tem uma presença maior do negro escravo, com relatos de atrocidades das mais cruéis em seus casarões, o que não se vê pelos nossos lados. A própria arquitetura se destaca pela singeleza de casarões práticos, numa contraposição ao fausto do ouro que se verifica nos pórticos sagrados da região surgida do brilho do sabarabuçu.

Mas, isso é papo de muitas horas, com que não me canso de discutir com o velho líder. Acho que precisamos nos reciclar. Por fim, boto olhos de tersol nessa visão de bi-centenário. Zé dá uma bela risada, mas não somos historiadores, nem eu nem ele. A palavra deve ser passada para os especialistas. Datas são coisas muito sérias, história também. Há nomes que precisam ser resgatados. Santos Mestre é um deles. Foi uma das maiores lideranças regionais que por aqui passaram. Um nome bem maior que um reles miliciano sem identidade.